Carta ao além:

Hoje, Dia dos Professores, como todos os dias, aliás… Me veio a cabeça uma pessoa. Esta foi responsável por grande parte do que eu aprendi, na leitura, na escrita, mas, principalmente, na vida. Pude conhecê-la em 2012, último ano do Ensino Fundamental II, e daí em diante uma admiração perpetuada. Era o primeiro a entrar na sala, o último a sair. Quando passava pela porta, tanto na entrada quanto na saída, cumprimentos sinceros, alheios àquelas convenções sociais forçadas. E o dia, de fato, se tornara bom. Entre conselhos de vida, compartilhamentos de culturas e conceitos, sempre com humildade e consenso, surgiu mais do que uma relação aluno-professor(a). Talvez uma amizade, da minha parte pelo menos. Me lembro dos poemas de Fernando Pessoa, dos seus heterônimos, da relação cultural entre as línguas, das correções, que embora rígidas, necessárias. Além da competência profissional, uma imensidão pessoal, um coração colossal, uma consciência experiente e madura. Reconhecia-nos com meros olhares, oferecia-nos soluções, propondo civilidade e respeito, uma vez que num clima conturbado, tornava-se complicado manter tais posturas. Pude manter, ao menos naquelas aulas, nas segundas, quartas e sextas-feiras. Certo dia, após o êxito – de praxe – da aula, pudemos ouvi-la contando-nos histórias de vida, com um poder de mantermos concentrados impressionante. Mantive-me focado, ininterruptamente, durante todo o monólogo… e segurei as lágrimas, pois nada naquele instante poderia me desfocar. Ouvia dela sobre a sua mãe, como se tratavam e das promessas feitas, entre as quais incluía-se a vontade de lecionar. Aquilo tudo me fez sentido! Havia, por trás daquela fortaleza inultrapassável, um ponto de partida crucial, um porquê que explicara a mim todas as outras dúvidas que surgiram na minha mente por perceber que toda aquela dedicação era incomum, rara, quase inexistente naquele ambiente. Contou-nos também de quando assistiu ao show da Legião Urbana em Sorocaba, cidade vizinha, observando que, ao ouvir ”Vento no Litoral”, canção excepcional de Renato Russo, emocionava-se pela representação íntima dela com aquela letra, a qual trata de saudade, despedida e recomeço. Hoje, quase três anos depois, já não posso entrar na sala de aula e vê-la ali, ensinando com prazer e gratidão, pois o vento a levou, a Física, a Química, enfim, a Ciência a tirou daqui. Mas, toda vez que escrevo, leio e me comunico, no fundo guardo tanta gratidão pelo o que me foi ensinado, que acabo por ouvir a música citada… e me emocionar. Porque, além de ter sido uma professora, me foi uma amiga, uma irmã, conselheira de todas as manhãs. Num ano complicado para mim, um alento que me manteve forte. Se as ciências exatas não a manteve, as humanas lhe perpetuou; numa sociedade à mercê do ceticismo, tu acreditou, e deu sentido para a Sociologia; num ambiente desprovido de consciência, expunha pensamentos capazes de nos fazer racionalizar, sendo assim, um alto-falante da Filosofia; naquela hostilidade incomunicável e ignorante, deu-nos armas linguistas para a defesa própria através de argumentos verbais, não de reações físicas, possibilitando-nos, enfim, a aproximação ao Português como todos deveriam ter feito – e não o fizeram por covardia.

Tão corajosa! Tão honrosa! E tão ética! Saudades, Professora Edna. Digo, sem culpa e receio, ou arrependimento, aliás, exclamo: TU FOI A MELHOR EDUCADORA DA MINHA VIDA DENTRO DO ÂMBITO ESCOLAR! E, neste dia, teria de escrever sobre ti, embora tenha a consciência de que não está mais aqui, mas sabido do quão convergente esta minha opinião é perante aos que puderam tê-la, de alguma forma, em algum lugar, por algum período.

  • Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. (Pessoa, FERNANDO).

– Kaio Lopes, ex-aluno de uma eterna professora. 

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Publicado em 15 de outubro de 2015, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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